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Nutrição em Saúde
Alimentos fortificados devem compor a dieta?
Nós utilizamos alimentos fortificados há muito tempo. A fortificação de alimentos é a adição de vitaminas e de minerais com o objetivo de garantir a ingestão diária recomendada desses micronutrientes. Este é um procedimento eficaz na prevenção da deficiência de vários micronutrientes, mas é importante a seleção correta do tipo de alimento a ser suplementado. Não se justifica a utilização de alimentos questionáveis do ponto de vista nutricional somente porque eles foram fortificados com essa ou aquela vitamina.

Contamos com exemplos importantes e bem sucedidos de alimentos fortificados no Brasil com a fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. São eles o sal iodado, a água fluoretada e a fortificação das farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico. A fortificação destes alimentos tornou possível a suplementação do iodo contra o hipotireoidismo congênito e o bócio endêmico, do flúor na prevenção de cáries e do ferro e do ácido fólico na prevenção e combate da anemia carencial e das deformidades do tubo neural em fetos em formação. Nos casos citados, a suplementação vitamínica beneficia grande parte da população brasileira, conseguindo alcançar todas as classes sociais, nos diversos recantos do Brasil onde foi adotada.

No caso brasileiro, a fortificação deve corresponder, para alimentos sólidos, a 30% das necessidades diárias de uma pessoa em relação aquele nutriente, em cada 100 g do referido alimento. Para produtos líquidos, esse valor é de 15% para cada 100 ml. Caso o produto não atinja esse índice, mas forneça metade dele, então o rótulo só poderá informar que aquele alimento é fonte de determinado nutriente ou somente que o contém em sua composição, não sendo, portanto, considerado alimento fortificado ou enriquecido. Porém, é permitida a adição de até 100% a mais de vitaminas no alimento industrializado, exceto de vitamina D, para compensar as perdas eventuais decorrentes do tempo de prateleira.

Variedade de alimentos fortificados nos supermercados

Nos supermercados, o que vemos é uma grande variedade de alimentos contendo várias vitaminas, acrescidos de ferro e sais minerais, contendo quantidades extras de fibras e de cálcio, concorrendo pela preferência de um consumidor confuso em meio a tantas informações. Temos que encarar a dificuldade do brasileiro em relação à leitura dos rótulos. Eles precisam ser bem detalhados para que o consumidor descubra que apesar de fortificados, muitos alimentos continuam sendo impróprios para o consumo. Por exemplo, o acréscimo de uma vitamina a um biscoito não significa que esse alimento seja nutritivo, pois, muitas vezes, ele tem alto teor de gordura saturada, que voltou a aparecer em maior quantidade nos rótulos dos alimentos industrializados, devido à redução das gorduras hidrogenadas.

Diante de tamanha oferta, é preciso avaliar a necessidade de consumirmos salgadinhos, biscoitos, cereais matinais, gelatinas, farinhas e até balas em versões fortificadas, uma vez que a maioria desses produtos não carrega quantidades importantes de nutrientes, não devem ser ingeridos à vontade e não substituem os alimentos naturais. Se por um lado, determinado produto fornece pequenas doses de vitaminas e sais minerais, por outro, muitas vezes, ele apresenta altos índices de gorduras, açúcares e sódio, que podem levar a problemas como obesidade e diabetes, e, no caso do sódio aumento da pressão arterial. Quanto mais sal, gorduras, açúcares e corantes, mais comprometida fica a qualidade nutricional de um alimento.

Quando é preciso fortificar?

A suplementação de alimentos em condições fisiológicas é recomendada em condições muito especiais, nas quais a alimentação não pode suprir tais necessidades. Entre elas, podemos citar a suplementação de vitamina D à criança em uso estrito de leite materno, a suplementação com ácido fólico a mulheres antes e durante a gestação, a suplementação de cálcio e vitamina D na menopausa e principalmente após os 60 anos. Além dessas condições fisiológicas, temos as suplementações em decorrência de doenças carenciais - caso do ferro nas anemias por carência desse mineral - e nos pós-operatórios de doenças que impedem uma alimentação adequada. Atualmente, os pacientes submetidos à cirurgia da obesidade também representam um grupo de condições de extrema necessidade de múltiplas suplementações, uma vez que passam a não absorver vários tipos de vitaminas e minerais.

Entre os alimentos fortificados, alguns se distinguem pela real necessidade para determinados grupos populacionais e pela manutenção das características nutricionais que eles detinham antes da fortificação. Entre eles podemos citar:

1) Os laticínios, que são ótimos veículos de fortificação, uma vez que são ingeridos diariamente e conseguem manter suas características nutricionais após a associação de cálcio, ferro e vitaminas. Isso ocorre inclusive em suas versões desnatadas. Assim, esses alimentos são úteis para crianças com anemia por deficiência de ferro e em fase de crescimento, casos onde as necessidades de cálcio são maiores. O leite e os iogurtes suplementados com cálcio são também muito úteis na prevenção e no tratamento da osteoporose, principalmente em mulheres na menopausa. Alguns deles garantem cerca de 500mg de cálcio por 200ml do produto, o que equivale a um comprimido de suplemento de cálcio;

2) As margarinas foram os primeiros produtos industrializados apontados por usarem a pior gordura até então conhecida para o nosso organismo, a gordura hidrogenada ou trans. Após a constatação de seu potencial deletério, também foram as margarinas, as pioneiras a retirarem essas formas de gordura de sua formulação. Atualmente, a maioria das margarinas é livre de gorduras hidrogenadas e enriquecida com vitaminas. Os cremes vegetais são semelhantes às atuais margarinas, mas alguns deles têm um diferencial muito importante: são suplementados com fitosteróis, substâncias capazes de reduzir a absorção de colesterol da dieta, atuando como coadjuvante no tratamento dos casos de excesso de colesterol no sangue, a hipercolesterolemia. Em outros países, essa substância é utilizada para fortificar vários outros tipos de alimentos como óleos vegetais e iogurtes;

3) Pães integrais ou enriquecidos com fibras podem representar um salto de qualidade nas dietas. As variedades são muitas em sabor e na quantidade de fibras que oferecem. Esses alimentos, entretanto, podem ter grandes quantidades de sódio. Pessoas com hipertensão arterial devem sempre procurar pelo valor desse importante mineral nos rótulos dos alimentos industrializados;

4) Iogurtes com prebióticos e próbióticos, que são substâncias capazes de regularizar o ritmo intestinal. Estes alimentos vêm influenciando positivamente no padrão do café da manhã das pessoas e evitando os riscos potenciais do uso de medicamentos laxantes, que, muitas vezes se apresentam envolvidos por um inocente rótulo de naturais ou chás, mas, na verdade, causam comprometimento definitivo da função intestinal;

5) Água com adição de fibras, que pode ser uma boa aliada nutricional, uma vez que consegue aliar a adequação do consumo de líquidos e fibras, ambos importantes à saúde;

6) Os achocolatados fortificados, que contribuem para a obtenção adequada das necessidades diárias de vitaminas e minerais, principalmente em crianças. Devido ao seu alto teor de açúcar devem ser usados com cautela por crianças e adolescentes obesos.

A vantagem do alimento natural

Em relação ao consumo dos alimentos fortificados são sempre muito pertinentes as recomendações da American Dietetic Association que apregoa que "a melhor estratégia nutricional para a promoção da saúde e para a redução do risco de doenças crônicas é o consumo de uma grande variedade de alimentos. O uso adicional de vitaminas e sais minerais, vindos de alimentos fortificados ou suplementos, deve apenas auxiliar a atingir as necessidades nutricionais, baseadas nas conhecidas quantidades recomendadas de ingestão".

Outro ponto que devemos ter em mente é que os alimentos naturais, como frutas e hortaliças são sempre superiores aos alimentos industrializados e fortificados, pois no alimento in natura, as vitaminas estão em suas formas de maior atividade. Assim, 100g de maçã com casca tem o poder antioxidante de 1500mg de vitamina C como demonstrado na revista Nature, fato impossível de ser alcançado, mesmo com as mega doses de vitaminas, uma vez que nosso organismo sabiamente descarta a maior parte delas através da urina.
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