| Nutrição em Saúde |
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"Venho me alimentando de luz. Hoje recuso calabresa e como barrinha de cereal como sobremesa... Afinal, meu peso é minha cruz! Tudo é light... desde o chocolate até o refri da night! Ando na esteira três vezes por semana e como banana 2a, 4a e 6a feira! Confesso: venho me sentindo bem: Não me sinto mais estufado mas ainda estou longe de sentar e não marcar o estofado! Não quero subir na balança, pois não quero que meu peso me suba à cabeça."
Carlos Alberto Cortez Bermudes Filho, nosso paciente.
Muitas vezes é difícil entender as dificuldades em seguir uma dieta. Adequamos o cardápio, respeitamos os horários de fome, não insistimos nos alimentos pouco tolerados, negociamos aqueles objetos do desejo... Mesmo assim é muito difícil. Atuamos qual detetives em busca da real dificuldade de cada um.
Será a força do comportamento familiar? Será a intensidade das relações sociais? Será uma reação ao stress? Será os equívocos das escolhas que não cedem as evidência do erro? Será uma intolerância à privação ou às restrições? Será uma desorganização da vida pessoal? Será uma falha na percepção da saciedade? Será fome? Será Compulsão?
O certo é que, seja qual for a causa, a maioria das pessoas encontram uma barreia quase intransponível entre a sua necessidade de perder peso e a sua capacidade de seguir uma dieta. Isso inviabiliza seu projeto e traz uma imensa frustração. Nesse contexto, a nossa atitude mais sensata é decifrar as entrelinhas de tamanha inadequação e não cair na armadilha da sensação de derrota que todos eles trazem à consulta junto com suas queixas médicas.
A força do comportamento familiar
A herança da obesidade, além de genética, é comportamental. Os filhos tendem a assumir o comportamento dos pais e a carregá-lo consigo por toda a vida. Muitas vezes imaginam que ao saírem da casa paterna terão escolhas próprias e mais acertadas, mas o que ocorre é um desastre. Além de manterem tais atitudes inadequadas, associam a elas alto grau de desorganização, perpetuando as dificuldades da perda de peso.
Romper com esse comportamento é muito difícil, mas seria a única maneira de assumir um padrão alimentar mais adequado e que possibilite a perda de peso. Para isso, vale investir em pequenas mudanças na família, como abolir as frituras, comprar frutas, usar menos sal, aprender a preparar carnes magras e saladas saborosas. Não há como esperar mudanças bruscas, mas cada vitória em pequenos hábitos pode significar benefícios para toda a família.
A intensidade das relações sociais
Nas famílias numerosas, as festas se sucedem semanalmente; nas empresas, os almoços em conjunto e os "happy hours" são eventos obrigatórios; entre os amigos, o churrasco, a pizza e a cerveja não podem faltar e o lazer a dois sempre envolve um restaurante novo ou um "delivery". O comer festivo é sempre muito bom e estreita os laços das relações sociais, não há como nem porque fugir dele.
Ao invés de ser convidado e consumir os alimentos escolhidos pelos amigos, podemos convidar e escolher. Podemos ainda aprender a cozinhar para eles, utilizando preparações mais saudáveis e criativas. Atualmente, tem se tornado mais e mais comum, pessoas que curtem cozinhar. Há até um certo glamour nisso e o fato de se reunir para comer tem mais importância do que o próprio alimento servido. Essa atitude também não põe em risco o projeto de alcançar o peso ideal.
A reação ao stress influenciando o peso corporal
O hábito de comer talvez seja um dos fatores que mais sofre as repercussões do stress da vida moderna. Os relatos são unânimes: as pessoas comem muito mais quando expostas a fatores estressores, queixam-se de fome excessiva, comportamento beliscador e até uma necessidade patológica de consumir grandes volumes de alimentos: a compulsão alimentar. Diante do stress, o alimento tem a conotação de recompensa e dificilmente as pessoas conseguem limitar o seu consumo.
Até certo ponto o estresse pode ser benéfico e conduzir o indivíduo a alcançar metas importantes no trabalho e na vida pessoal. A curto prazo, na maioria das vezes, o organismo se reequilibra, sem comprometimento da saúde física e mental. Resta-nos aprender a lidar com ele e tirar proveito dos seus benefícios. Amadurecer é enfrentar o stress de maneira equilibrada e não deixar que ele influencie negativamente nossos mecanismos de compensação.
A dificuldade de perceber nossas escolhas inadequadas
Quando uma pessoa está engordando, é quase certo de que ela está comendo muito. Mas sempre é muito difícil convencê-la disso. Cerca de 80% dos pacientes que nos procuram para emagrecer, vem em busca de uma causa orgânica que justifique o ganho de peso. "Só pode ser hormonal" dizem alguns, "parei minha ginástica" dizem outros, " deve ser da idade..."
Há atualmente muita disponibilidade de alimentos com preços acessíveis. As provas disso são os inúmeros restaurantes que convidam para refeições com "preço único" ou "coma à vontade". Essas situações não permitem que as pessoas percebam o volume de alimentos que estão ingerindo. Escrever os alimentos consumidos durante todo o dia ou fotografar o prato são ferramentas úteis para que a pessoa consiga cair em si e identificar as reais causas do ganho de peso.
Intolerância às privações
É muito comum que diante das restrições das dietas, as pessoas passem a ter um desejo incontrolável de ingerir maior volume de determinados alimentos, ou façam opções por alimentos que não despertavam sua atenção anteriormente. Muitos nem se interessavam por doces e passam a não viver mais sem eles. Privar-se passa a ser intolerável, principalmente de algo tão acessível como os alimentos.
Infelizmente, a maioria dos pacientes sente mais facilidade em abolir um alimento do que em controlar o seu consumo. Isso impõe a eles grandes privações, muitas vezes desnecessárias. A saída seria buscar um grau de organização que seja capaz de melhorar a palatabilidade das dietas sem abusar das gorduras e açúcar e acabar com a idéia de que por ser dieta, os alimentos não tem graça nem sabor. Isso é pura falta de criatividade.
A desorganização como fator de ganho de peso
Algumas pessoas não têm um padrão alimentar. Sentem fome, mas não tem rotina. Hora eles atendem à sua fome, hora negligenciam esse sintoma e passam muito tempo sem comer. Eles simplesmente não têm programação alimentar nenhuma e podem fazer um lanche num vendedor ambulante, quando essa situação lhes é propicia, como podem comer em um bom restaurante. Mas tanto faz.
O grande desafio para essas pessoas é a tentativa de se organizar. A começar pela dura tarefa de fazer, pelo menos, as três refeições básicas... ou, quem sabe, fazer uma delas. Quando alcançam essa façanha, podem ter esperanças quanto ao andamento de suas dietas. Certamente eles conseguirão bons resultados e se sentirão muito melhor.
O equilíbrio entre fome e saciedade
Há uma crença equivocada de que a sensação de fome está alterada nas pessoas que comem muito e/ou que são obesas. Muitas delas chegam ao consultório desejosas de tomarem algum medicamento que "corte" a fome. A crença é de que essas pessoas têm mais fome do que as demais. Grande equívoco. As pessoas que comem mais e/ou são obesas tem, na realidade, uma grande falha nos sinais de saciedade. Comem e não sentem saciadas e continuam comendo. Mesmo assim, muitas vezes até interrompem a refeição, mas mediante grande esforço, pois comeriam muito mais se pudessem.
Fome é normal e bem-vinda. O que precisamos é treinar saciedade. Para tanto, há várias recomendações que podem ser úteis como comer devagar, não dispensar uma entrada de saladas, consumir alimentos integrais ou ricos em fibras, comer a intervalos regulares e com a atenção voltada para a refeição. Parecem medidas de fácil implementação, mas requerem disciplina e envolvimento em um plano nutricional bem definido. Na verdade, nada disso é fácil, mas não são barreiras intransponíveis e vale a pena tentar.
E você? Como se sente em relação ao seu peso? Consegue mantê-lo em forma ou vive em luta contra a balança? Consegue entender suas maiores dificuldades? Consegue se identificar com as situações expostas? Como você costuma reagir a elas? Dê sua opinião, pois isso pode adicionar diferentes maneiras de pensar e vivenciar os problemas com a balança e pode enriquecer nosso texto com suas experiências. |
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