CITEN
Endocrinologia
Hormônios masculinos em mulheres
Um dos temas do último Congresso Internacional de Endocrinologia, realizado em novembro de 2008, no Rio de Janeiro, foi um debate com a seguinte pergunta: A terapia com hormônio masculino deve ser usada na mulher na menopausa quando ela se queixar de redução da libido ou desejo sexual? No evento o debate foi conduzido por dois especialistas com posições diferentes. Daí, podemos imaginar como o assunto é polêmico. Não foi uma conferência ou uma aula. Foi um debate acalorado, onde ambos traziam evidências sobre a eficácia ou a ineficácia, os benefícios ou os riscos da prescrição de hormônios masculinos (andrógenos) às mulheres.

A idéia do debate seria que ao final, os ouvintes, cerca de 5 mil médicos, principalmente endocrinologistas, se manifestassem em votação erguendo a mão, "votando sim" ou "votando não" para o questionamento que motivou o debate. O resultado do debate foi que a maioria dos ouvintes votaram "pelo sim", pelo uso dos hormônios masculinos em mulheres que estavam na menopausa e tinham queixas de redução da libido.

Hormônios masculinos também são produzidos pelas mulheres

Na mulher, os hormônios masculinos são produzidos pelos ovários e pelas glândulas supra-renais. Da mesma forma que os hormônios femininos, eles passam a ser produzidos nos ovários, de maneira mais intensa, na puberdade.

Na década que precede a menopausa, já podemos notar uma queda no pico dos hormônios masculinos, notadamente da testosterona, que ocorre normalmente no meio do ciclo menstrual de mulheres jovens. No caso das mulheres com menopausa precoce ou naquelas que foram submetidas à cirurgia para a retirada dos ovários, a queda dos níveis de testosterona parece ser mais evidente e com sintomas de enorme desconforto.

"O envelhecimento é a maior causa de redução dos hormônios masculinos nas mulheres, a ponto das concentrações de testosterona - o mais potente hormônio masculino - caírem pela metade na mulher de 40 anos, em relação à mulher de 20 anos. Parece que a queda desse hormônio é insignificante na transição da menopausa natural, sendo mais evidente uma queda progressiva durante o envelhecimento", explica a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional.

Como diagnosticar a deficiência de hormônio masculino na mulher?

A menopausa pode ser facilmente definida como a última menstruação de uma mulher. A dosagem hormonal nessa fase da vida feminina é contundente no anúncio do climatério. A dosagem dos hormônios masculinos ou andrógenos na mulher sofre muitas interferências. Há uma metodologia desenvolvida para a dosagem desses hormônios no homem, onde os níveis hormonais são muito mais elevados. "Mas na mulher, devido às variações naturais do organismo, fica difícil a identificação precisa destas reduções dos níveis séricos dos andrógenos, tanto antes, quanto após a menopausa", diz a endocrinologista.

Os sintomas mais característicos dessa fase da vida feminina, muitas vezes, são intensos e motivo de reiteradas queixas, principalmente, junto aos ginecologistas. A maioria deles, entretanto, são relativos à deficiência do estrogênio, o hormônio feminino e se manifestam como ondas de calor, redução da lubrificação vaginal e com ela a maior ocorrência de infecções vaginais, infecção urinária e dor durante o ato sexual. "Quando há queixas de redução do desejo sexual ou da libido após a menopausa, pouco adianta a reposição do hormônio feminino, pois esse sintoma está muito mais relacionado à deficiência de hormônios masculinos", diz a médica.

Aqui, mais um impasse, a redução da libido pode ocorrer e realmente ocorre muito mais freqüentemente por outras causas que não a deficiência dos hormônios masculinos. São fatores complexos como influências psicossociais, educacionais, culturais, comportamentais, experiências passadas e relação com o parceiro, até aqueles inerentes à simples rotina dos casais.

"Assim, o diagnóstico depende de uma avaliação criteriosa de cada paciente e se baseia no conjunto dos sintomas de redução da libido, fadiga crônica e falta de motivação, afastadas as várias outras possíveis causas desses sintomas, associados aos sinais de deficiência androgênica, incluindo a perda de massa óssea e a redução da massa muscular", destaca Ellen Paiva. Dada às dificuldades metodológicas na dosagem dos hormônios masculinos na mulher, essa avaliação laboratorial geralmente não ajuda no diagnóstico.

Outras possíveis causas de deficiência de hormônios masculinos na mulher devem ser afastadas como depressão, síndrome da fadiga crônica, estresse, doenças tireoidianas, elevação da prolactina e deficiência de ferro ou vitamina D. "Nesses casos é importante que se diga que o tratamento deve ser dirigido à doença de base e não à administração de hormônios masculinos à mulher", ressalta a diretora do Citen.

Um diagnóstico diferencial muito difícil nessas pacientes é saber o que veio primeiro: se a redução da libido ou a depressão. Isso porque sabemos que a depressão é um dos mais importantes fatores causais da redução da libido; perde-se o interesse pela vida e pelo sexo. Por outro lado, a redução da libido é descrita por essas pacientes como um fator de grande angústia e melancolia, que em graus intensos, pode levar a reações depressivas.

Finalmente a menopausa cirúrgica ou a retirada dos ovários por qualquer patologia ginecológica, principalmente em mulheres em idade anterior à menopausa está fortemente associada à redução do desejo sexual, chegando a cifras de mais de 50%. "São muitos os estudos científicos que têm revelado que a reposição hormonal associada à testosterona tem sido muito mais eficaz em restaurar uma atividade sexual satisfatória às mulheres, após menopausa cirúrgica, quando comparadas aquelas que receberam apenas a reposição hormonal com hormônio feminino", informa a endocrinologista.

O uso da testosterona na mulher

A ação farmacológica da testosterona na mulher ainda não está bem esclarecida. Parece que esse hormônio, administrado em comprimidos ou adesivos, melhora o humor e o bem-estar, a massa óssea e muscular e estimula a libido. Na maioria dos estudos científicos, a testosterona é administrada em associação com os esquemas de reposição hormonal em mulheres na menopausa. Há ainda poucos estudos científicos que possam servir como base para se usar testosterona em mulheres antes da menopausa.

Uma vez que a terapia de reposição hormonal com hormônios femininos já divide os especialistas, o que dirá do uso de hormônio masculino na mulher, após a menopausa. "Começamos a rever tal posição ao observar que muitos sintomas comuns do climatério não melhoram com a reposição de estrogênio. Muitas mulheres persistem com queixas de fadiga crônica, falta de motivação e redução da libido. Muitas têm sinais de perda de massa óssea e redução da massa muscular. São estas as candidatas ao uso do hormônio masculino. A tarefa em identificá-las é muito importante para a obtenção dos benefícios definidos como secundários ao uso dessa reposição hormonal", destaca Ellen Paiva.

De acordo com vários trabalhos científicos, parece que administração de testosterona exógena pode melhorar o humor, a fadiga crônica e a libido nessas mulheres. A maioria dos estudos científicos utiliza a testosterona apenas nas mulheres após a menopausa, combinada ao estrogênio (após a retirada dos ovários) ou a estrogênio + progesterona (após a menopausa natural).

Nos Estados Unidos, a administração de testosterona na menopausa foi aprovada sempre em associação com estrogênios em mulheres na menopausa com sintomas de moderada a elevada intensidade, sempre que a terapia com hormônio feminino tenha se mostrado ineficaz.

Efeitos colaterais da administração de testosterona na mulher

A maioria dos trabalhos científicos que avaliam o efeito da testosterona administrada a mulheres na menopausa é de curta duração, sendo os mais longos de apenas 24 semanas. Os efeitos colaterais mais comuns são o aumento de pêlos e acne, que geralmente tem reversão com a suspensão da medicação. É preocupante o risco de abuso de hormônios masculinos, uma vez conhecido o potencial de toxicidade hepática dessas drogas. Além disso, doses mais elevadas desses hormônios em mulheres podem causar alterações no timbre da voz, queda de cabelos e virilização, como o aumento do clitóris.

Por não contarmos com estudos de longo prazo, ainda restam várias dúvidas a cerca do risco cardiovascular e de câncer de mama relacionados ao uso de andrógenos."Mulheres em menopausa natural ou cirúrgica podem se beneficiar com o uso da testosterona, principalmente se elas têm redução da libido, sem outras causas identificadas. Nesses casos, os esquemas terapêuticos devem respeitar os limites de normalidade dos hormônios masculinos em mulheres e elas devem ser esclarecidas quanto aos possíveis efeitos colaterais desse tratamento", diz a endocrinologista Ellen Simone Paiva.
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