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Endocrinologia
Obesidade infantil: um desafio para a família, profissionais de saúde e governos
As pesquisas e censos realizados em todo o mundo dão conta de que estamos diante de um dos maiores problemas de saúde pública já enfrentados: a obesidade na infância e na adolescência ultrapassou grupos populacionais anteriormente definidos, saiu das cidades e alcançou o campo, deixou os bairros socialmente privilegiados e invadiu as favelas, deixou para trás o ocidente e se alastrou pelos povos orientais. Nos últimos 30 anos, a prevalência de obesidade quase que triplicou em crianças de 2 a 5 anos e em jovens de 12 a 19 anos, e quadruplicou em crianças de 6 a 11 anos, apontam os censos norte-americanos.

No Brasil, como na maioria dos países em desenvolvimento, as estatísticas são ainda piores. Por aqui, o excesso de peso infantil triplicou nos últimos 20 anos, considerando a prevalência de 4,1% no censo do IBGE 1974/75, em comparação aos 13,9% encontrados em 1997. Estima-se que 20 a 25% das crianças e adolescentes brasileiros sofram de sobrepeso ou obesidade.

Esses dados definem a necessidade de programas eficazes dentro dos lares, pois são os locais onde se formam os hábitos alimentares e estilos de vida; nas escolas, pois lá, nossos filhos passam a se alimentar longe das nossas mesas e dos nossos olhos; nas prefeituras e governos municipais, estaduais e federais, pois é alto o ônus das sociedades em virtude dos males físicos e psicológicos relacionados à obesidade infantil.

Apesar de já termos conhecimento deste cenário sombrio, ainda estamos longe de alcançar eficiência na prevenção e combate à obesidade infantil e um exemplo disso é a constatação de que 80% das crianças com sobrepeso entre 10 e 15 anos de idade se tornam obesas aos 25 anos de idade, dando conta da nossa atual ineficiência frente à obesidade infantil.

As várias causas da obesidade infantil

As dificuldades na prevenção e no tratamento da obesidade infantil começam no fato da doença ser multifatorial, ou seja, há vários fatores envolvidos e cada criança deve ser avaliada individualmente pelo médico para que ele possa atuar especificamente.

A principal causa da obesidade, incluindo crianças e adolescentes, está na ingestão excessiva de calorias em relação às necessidades individuais. Esse fator é determinado pelas profundas mudanças comportamentais ocorridas na sociedade moderna, na industrialização dos alimentos e no ambiente familiar.

Nesse contexto, com a profissionalização da mulher, as crianças passaram a receber uma maior quantidade de alimentos industrializados, em porções cada vez maiores, alimentos esses altamente palatáveis e densamente calóricos, ricos em carboidratos, gorduras e sal. As crianças passaram a fazer refeições rápidas, principalmente lanches e guloseimas, a comer na escola, geralmente em cantinas sem a menor preocupação com a qualidade nutricional dos alimentos. Somando-se a estes fatores, elas ainda são alvo da propaganda de alimentos industrializados, mais saborosos e baratos. Todas essas mudanças dificultam a reeducação alimentar das crianças, aliadas a um fator de grande impedimento ao tratamento da obesidade infantil: os maus hábitos alimentares dos pais.

Além do maior consumo calórico, as crianças mudaram muito sua forma de brincar. Não soltam pipas, não jogam bola com os colegas de rua, não andam de bicicleta ou de carrinho de rolimã, não brincam mais se exercitando, como acontecia antes. O único lazer das crianças passou a ser o apertar de botões, no que eles passaram a ser altamente competentes. Com isso, houve uma redução dos gastos calóricos, de modo a fazer com que se exacerbe o desbalanço entre as calorias que são ingeridas e aquelas que são queimadas diariamente. Esse superávit - calorias que sobram diariamente - leva a um acúmulo dessa sobra sob a forma de gordura.

Outros fatores como influências genéticas, como o diabetes materno, como crianças privadas do aleitamento materno e alimentadas precocemente com mamadeira, crianças em uso crônico de certos medicamentos como os corticosteróides e até a redução do tempo de sono na primeira infância são situações implicadas na gênese da obesidade infantil, mas que não têm, nem de longe, a importância das influências comportamentais e do estilo de vida como causa de obesidade na infância e adolescência.

Consequências da obesidade infantil

As consequências da obesidade infantil incluem um risco aumentado para a maioria das doenças crônicas, sendo mais frequentes: asma, esteatose hepática ou fígado gorduroso, síndrome da apneia do sono e diabetes. A longo prazo, estão a maior incidência de derrame e doenças cardíacas, vários tipos de cânceres, doenças músculo-esqueléticas e doenças da vesícula biliar.

Apesar de muitas vezes não ser perceptível, a obesidade infantil afeta a auto-estima e a sociabilidade da população infanto-juvenil. Pesquisas recente sugerem que há três variáveis psicossociais que podem afetar negativamente a qualidade de vida das crianças obesas, podendo inclusive dificultar mudanças em seus estilos de vida, como fazer dieta ou praticar atividade física. Essas dificuldades impostas pela obesidade podem coexistir na vida de muitas delas, embora elas se sintam relutantes em discutir o assunto com os pais, professores ou profissionais de saúde envolvidos em seus tratamentos. São elas:

(1) Dificuldade de enfrentarem gozações e brincadeiras de seus colegas relacionadas ao seu peso corporal, o que causa estresse psicológico intenso, piora da auto-estima e piora da sua auto-avaliação da imagem corporal;

(2) Isolamento social, redução considerável da capacidade de fazer amigos e de aproveitar as oportunidades de praticar atividade física em grupos, com o consequente aumento do consumo de alimentos;

(3) Depressão, que pode ocorrer como causa ou consequência da obesidade na infância e adolescência.

As consequências da obesidade na infância e na adolescência não param por aí. Outras pesquisas têm documentado alterações comportamentais até então desconhecidas como influenciadas pela obesidade. Parece que a obesidade na população infanto-juvenil está ligada ao comprometimento da performance escolar, a maior vulnerabilidade para os transtornos alimentares do tipo bulimia, a comportamentos de risco como tabagismo, alcoolismo, atividade sexual prematura e práticas nutricionais erradas e sedentarismo. Várias atitudes de risco e de desorganização da vida pessoal têm maior propensão de se agruparem na criança e nos adolescente obesos.

Finalmente, os trabalhos científicos têm revelado também o potencial efeito da obesidade sobre a expectativa de vida das crianças obesas, que sofreriam uma redução significativa em decorrência dos efeitos cumulativos das doenças associadas à obesidade.

Prevenção - a melhor atitude frente à obesidade

As atitudes mais eficazes na prevenção da obesidade infantil são aquelas que se baseiam na mudança do estilo de vida dos pais. São eles os maiores responsáveis pelos hábitos alimentares de seus filhos, pois as crianças herdam deles não apenas genes, mas comportamentos. Muitas vezes, atendemos crianças obesas, trazidas por pais obesos com discursos que retiram de seus filhos qualquer chance de emagrecer. Não me esqueço nunca de uma mãe obesa, que dizia estar trazendo a filha de 12 anos à clínica porque já havia desistido de si própria e que não queria mais sofrer as agruras de dietas que nunca dão certo. Mas sua filha ainda poderia dar certo... É claro que sem mudanças nas atitudes dessa mãe, nunca poderemos ajudar esta criança.

A primeira atitude para a prevenção da obesidade infantil baseia-se no aleitamento materno, pois crianças alimentadas com mamadeiras são mais propensas a ganho de peso precoce. Além dessa atitude, também já sabemos que dietas ricas em fibras e uma adequada ingestão de cálcio por parte das crianças exercem um poderoso efeito protetor contra a obesidade.

Após o aleitamento materno, as mães devem dar a seus filhos a chance de um vínculo com os alimentos saudáveis. Elas devem proporcionar a eles a chance de apreciar tais alimentos, antes que seus filhos descubram a sedução exercida pelos alimentos industrializados, muitas vezes, mais palatáveis pelo excesso de gorduras e sal, em relação aos alimentos naturais.

Ao ensinarmos aos pais, temos maiores chances de ajudarmos os filhos. Eles devem mudar a forma de fazer supermercado. Nada de encher carrinhos com comidas prontas. Eles devem voltar a cozinhar ou pagar quem o faça, devem aprender a dizer não ao excesso de guloseimas que se acumulam nos comerciais veiculados pela mídia, devem restringir os horários de TV e computador de toda a família, incluindo as crianças, mas acima de tudo, devem mudar primeiro os próprios hábitos, para que sejam convincentes. Os filhos observam atentamente os pais e saberão quando a lei é a que "faça o que eu digo e não faça o que eu faço".

O que levar na lancheira?

Quando avaliamos as estatísticas de obesidade infantil podemos constatar claramente um maior pico de obesidade na idade escolar, dos 6 aos 11 anos. Esse detalhe está relacionado ao fato da criança comer fora de casa, levando lanches mal elaborados ou comprando alimentos inapropriados nas cantinas escolares. Daí a necessidade de se regulamentar tais comércios de alimentos nas escolas, além de orientar as mães no preparo das lancheiras.

1 - Evitem os salgadinhos industrializados. Apesar de práticos e baratos eles costumam ter muita gordura trans, muito sal, nada de nutrientes. E o que é pior: criam um hábito que dificilmente pais e professores irão conseguir tirar;

2 - O pão deve ser o carboidrato de todo o dia. Varie o sabor usando os vários tipos de pão de forma, as bisnaguinhas, o pão francês e tantos outros. Evite os croissants, os biscoitos recheados, os waffles, pois estes "ganham as crianças" pelo sabor, mas são ricos em gordura e tudo parece sem graça, após o seu consumo;

3 - Para completar os sanduíches, utilize o queijo em suas mais diversas formas, um embutido que agrade a criança, uma vez que temos versões magras muito convenientes;

4 - Os sucos de frutas em caixinha são práticos para serem levados à escola, além de nutritivos;

5 - Os achocolatados em caixinha podem ser uma opção ao suco, uma vez que o consumo do leite deve ser sempre incentivado, por seu alto teor de em cálcio para quem está em crescimento;

6 - As frutas podem ser enviadas para a escola, quando as crianças as apreciam. Nem todas gostam de frutas na escola e isso deve ser respeitado para que essa imposição não crie uma rejeição.

Tratamento engloba toda a família

O tratamento da criança obesa parece simples... A perda de peso depende de conseguirmos ingerir menos calorias ou gastar mais calorias. De preferência, devemos fazer as duas coisas para atingir benefícios aditivos incontestáveis, as custas de atitudes menos drásticas. Mas a facilidade é apenas aparente, não fosse assim, a obesidade não estaria crescendo em ritmo tão vertiginoso.

A maioria dos guias nutricionais das associações mundiais de nutrição orienta uma dieta rica em fibras, incluindo frutas, vegetais, grãos integrais e legumes. Isso pode ajudar a reduzir o consumo de alimentos altamente calóricos em grande quantidade e a manter algum grau de saciedade por mais tempo. É o caso, por exemplo, de servir uma bela e variada salada, antes da massa do domingo. Entenda-se aqui como salada algo muito mais saboroso do que alface e tomate, monotonamente jogados em uma travessa, o que não anima ninguém. Essa salada deve conter sempre alguns atrativos como frutas da estação, alho picado e frito salpicado nas folhas, cebolas preparadas anteriormente em salmouras ou assadas para lhe retirar o ardor, legumes fatiados, que no inverno, podem ser servidos grelhados e finalmente algum tipo de acompanhamento que costuma agradar as crianças como ervilhas frescas, palmito e até crutons.

Um dos maiores responsáveis pela obesidade, não somente a infantil, são as bebidas de todos os tipos. Aqui, entram os refrigerantes e sucos de frutas, concentrados ou não. Não há vantagem em dizer que a família não consome refrigerantes, quando litros e litros de sucos, altamente calóricos são consumidos em todas as refeições e fora delas. O controle desse tipo de alimento pode ser o passo inicial para o controle da obesidade infantil.

Outro importante componente da dieta estreitamente ligado à obesidade são os lanches e "fast foods", que foram incorporados à vida familiar, solicitados pelos "deliveries", preparados aos montes em casa ou nos passeios imperdíveis da família que aguarda ansiosamente pelo domingo, quando consomem tais alimentos nas lanchonetes famosas, na companhia de crianças nas mais tenras idades.

Os pais dizem que são obrigados a levarem os filhos, mas, no fundo, são também grande apreciadores do produto. Restringir drasticamente esse tipo de alimento seria o segundo grande passo para tratar a obesidade infantil.

A atividade física deve ser sempre recreacional, com opções ao gosto da criança. Quando a criança se nega a se exercitar, isso pode indicar um certo constrangimento causado pela obesidade, além é claro da dificuldade de mobilidade e de agilidade que essas crianças apresentam. Muitas vezes, estas crianças necessitam de atividades para melhorar a própria condição física e não de competições com crianças mais ágeis e habilitadas.

Cabe aos pais estimular os filhos através de um lazer com mais atividade física, como passeios ao ar livre, como andar a cavalo, soltar pipas, passear no parque e até um joguinho de futebol em família, que estreita os laços e grava na memória das crianças momentos inesquecíveis.

Sua participação

A dieta deve ser individualizada. E na infância e na adolescência deve ser ainda mais cuidadosa. Deve alimentar e emagrecer ao mesmo tempo, por se tratar de crianças em fase de crescimento. Não podemos impingir muitos sacrifícios e devemos evitar a todo custo a monotonia dos cardápios inflexíveis. A mudança gradual dos hábitos alimentares de toda a família repercute sobre os pequenos de forma mais suave e natural, além de não serem vistas como fases de sacrifício que se espera terminar logo, para se voltar aos mesmos hábitos anteriores.  Crianças e adolescentes, mesmo se não estiverem acima do peso, devem ser estimulados a praticar atividades físicas. A prioridade se dá para esportes coletivos, que socializam e divertem. Essas oportunidades podem desagregar a família, quando mal implementadas, mas podem ser oportunidades de ouro para se estreitarem os laços de solidariedade entre seus membros. E você: convive ou lida diariamente com alguma criança ou adolescente obeso? Você compartilha com a nossa posição de que a obesidade só tem tratamento se a família toda estiver envolvida?
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