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Endocrinologia
Destaque do mês de setembro: veja a discussão
São várias as formas inadequadas de comer e, na maioria das vezes, elas refletem muito mais a desorganização da vida pessoal do qualquer outra coisa... Quando as pessoas descrevem seu dia-a-dia alimentar, elas nos dão a impressão de que comer passou a ser uma banalidade. Ouvimos relatos de longos períodos de jejuns, intercalados por beliscos, estrategicamente esquecidos nos relatórios alimentares, muita necessidade de comer chocolates e muita dificuldade em fazer refeições bem definidas. A história mais comum é a de pessoas que passam o dia negligenciando as refeições, por falta real de tempo ou por verdadeiro desinteresse em fazê-las. As pessoas não têm fome para encarar um prato de comida, mas também não tem saciedade para recusar uma guloseima. Com os longos períodos de restrição, essas pessoas, quando param para comer, comem em exagero, o que geralmente coincide com a folga noturna.

Essa descrição não se traduz numa "síndrome do comer noturno", não se caracteriza como um "transtorno da compulsão alimentar periódica". Portanto, não pode ser confundida com um transtorno alimentar. Muitas vezes, esses pacientes chegam ao consultório dizendo-se compulsivos, mas o que impera, na maior parte de suas vidas, é uma grande desorganização. Sentem muita fome à noite. Provavelmente, porque interromperam a correria diária, porque ficaram sem comer várias horas, não fizeram nenhuma refeição bem definida e comeram apenas alimentos que induzem saciedade rápida e fugaz. Muitas vezes, em casa, a desorganização continua, pois geralmente não há uma refeição noturna definida como jantar, dizem que preferem um lanche, mas seus lanches começam quando chegam em casa e terminam quando vão para a cama.

Assim, padrões alimentares que fogem do normal, na maioria das vezes, não são transtornos alimentares. São frutos da correria e do estresse da vida moderna e embora não sejam considerados doenças psiquiátricas, podem ser muito importantes devido ao impacto que causam à saúde e ao peso das pessoas. Comportamentos alimentares inadequados também dificultam muito a aderência dos pacientes às orientações nutricionais e interferem negativamente nos tratamentos para a perda de peso.

O que se considera um padrão alimentar normal?

Apesar dos diferentes hábitos familiares e culturais, o padrão alimentar, em termos biológicos, é regido pelos sinais de fome e saciedade. Comemos quando os gatilhos de fome são acionados e fazemos pausas alimentares, mais ou menos definidas, durante o período de saciedade induzidas pelo alimento ingerido. Aparentemente, todo esse mecanismo é regulado por fatores hormonais, pelo tipo de alimento ingerido e pela própria rotina das pessoas.

Vários hormônios já são bem conhecidos pelo papel que desempenham em estimular o apetite, como a grelina, produzida pelo estômago, ou em causar saciedade como a leptina, produzida pelas células gordurosas. Dentre os alimentos, as proteínas são as campeãs de causarem saciedade mais prolongada e os menos sacietógenos são os carboidratos. Um exemplo disso é a rapidez em que a fome reaparece, após um prato de macarrão.

Um padrão alimentar considerado normal envolve as três principais refeições: café da manhã, almoço e jantar, com 2 a 3 pequenos lanches intermediários. Além das refeições regulares, há ainda que se considerar o volume das mesmas, uma vez que casos de doenças, como na Anorexia Nervosa, as pacientes até respeitam a regularidade das refeições, mas comem em quantidade infinitamente menor do que necessitam para manter a saúde e o peso ideal. No outro extremo, estão pacientes com comportamentos alimentares ditos não convencionais, que comem grandes volumes de alimentos, respeitando as várias refeições do dia, levando-os inexoravelmente ao sobrepeso e à obesidade.

Deslizes não podem ser confundidos com compulsão alimentar

Comer muito, de vez em quando, pode ocorrer com qualquer um de nós, principalmente quando temos um dia atribulado, mal deu tempo para um copo de leite de manhã, o almoço passou em branco e engolimos algumas bolachas entre um e outro compromisso à tarde. Chegamos em casa "varados" de fome e não conseguimos nos saciar com o prato normal do jantar ou com o lanche que normalmente ingerimos.

Comer muito, de vez em quando, pode também ocorrer normalmente quando nos deparamos com aquele prato especial e muito saboroso no domingo, ou com aquela sobremesa com a qual somos presenteados de vez em quando, em reuniões familiares.

Assim, após o jejum prolongado ou diante de uma comida muito saborosa, não há nada de errado em comermos em demasia e a única sensação ruim que tais situações podem causar é dificuldade digestiva, além de alguns quilinhos a mais.

Há ainda os que comem mais em ocasiões aflitivas, quando enfrentam algum problema ou quando são expostos a situações que geram ansiedade. Mesmo nesses casos, não encontramos os dados necessários para o diagnóstico do Comer Compulsivo. Aqui, não há a periodicidade dos episódios e a associação a situações especiais de tristeza ou ansiedade fazem deles quase que um ato de compensação da dor ou da tristeza.

O Comer Compulsivo não é nada disso. Os episódios compulsivos não são simplesmente comer muito, em pequenos espaços de tempo. Há algumas características desses pacientes que traduzem a gravidade do problema. Entre elas, a freqüência dos episódios, no mínimo 2 vezes por semana; a sensação de perda do controle sobre a alimentação; a ingestão rápida de alimentos pouco palatáveis e o comer sem fome. Entretanto, a característica mais marcante desse tipo de transtorno alimentar é a sensação de culpa e angústia geradas pela forma anormal de se alimentar. Come-se até se sentir desconfortavelmente empanturrado, até a dor física.

Hábitos alimentares que podem ser corrigidos

Comportamento beliscador

São os pacientes que afirmam categoricamente que não comem muito, simplesmente porque eles estão se referindo a suas refeições básicas. Elas realmente são de pequeno volume ou mesmo ausentes. Esses pacientes dizem não ter fome e já começam seu dia omitindo o café da manhã. Daí por diante, passam o dia se alimentando de pequenos volumes de guloseimas. São bolachinhas, castanhas, barrinhas de cereal, balas, paçoquinhas, chocolates e até mesmo várias porções de frutas. Somando tudo isso, eles geralmente comem muito mais calorias do que se estivessem fazendo suas refeições básicas. Não têm fome para elas, mas também não conseguem rejeitar esses pequenos beliscos.

Esses pacientes sentem sempre uma necessidade imensa de comer "algo", o tempo todo. Enquanto dirigem, trabalham no computador ou assistem TV. Eles estão sempre comendo. Há sempre um alimento a ser beliscado na bolsa, na gaveta do escritório, no porta luvas do carro e seus carrinhos de supermercado são abarrotados deles.

Esses pacientes devem ser orientados no sentido de conseguirem iniciar seu dia fazendo um desjejum completo. Isso, teoricamente, poderia evitar os beliscos da manhã e fazer com que eles sintam a tão normal fome na hora do almoço.

Comportamento hiperfágico

São os pacientes famintos. Geralmente, fazem as refeições básicas e muitas delas em grandes volumes. A maioria não faz os lanches intermediários, não beliscam e são os "bons de garfo". Eles se gabam de gostar muito de comer e comerem de tudo. Mesmo assim, raramente trocam sua refeição básica por um lanche. Esses pacientes se beneficiam muito com a inclusão dos lanches intermediários na dieta, que diminuem a fome durante as refeições principais e conseguem reduzir o total calórico de seus pratos ao aumentarem o consumo de verduras e legumes.

Comportamento desorganizado

Esses pacientes simplesmente não têm um padrão alimentar. Sentem fome, mas não têm rotina. Ora eles atendem à sua fome, ora negligenciam esse sintoma e passam muito tempo sem comer. Eles simplesmente não têm uma programação alimentar e podem fazer um lanche num vendedor ambulante, quando essa situação lhes é propícia, como podem comer em um bom restaurante. Mas tanto faz... Apesar de perceberem quando um alimento é bem preparado, isso não os estimula a procurar uma forma melhor de se alimentar. Eles acham muito trabalhosos os cardápios, por mais simples que sejam. Não têm rotina alguma, nem estão dispostos a mudar seus hábitos. São tão desorganizados a ponto de passar o dia todo sem comer e, muitas vezes, não se lembram do que comeram no dia anterior, revelando o fato de não darem nenhuma importância a esse detalhe. Geralmente, comem muito à noite, mas também sem uma refeição planejada. Esse talvez seja o paciente de mais difícil tratamento, pois, raramente, conseguimos sua adesão a um plano alimentar.

Comportamento sofisticado

São pacientes que fazem todas as refeições diárias. Raramente beliscam e não fazem grandes pratos, mas não conseguem comer preparações pouco elaboradas. Sofisticam seus pratos com a adição de diferentes tipos de queijos, castanhas e nozes, cremes de leite, frutas passas, bons azeites em quantidade. Além disso, adoram serviços completos com entrada, prato principal, bons vinhos, sobremesa, café e um bom licor para arrematar. Esses pacientes não têm preguiça para programar um jantar, minuciosamente. Fazem com grande prazer e esmero. Cozinham bem ou conseguem quem o faça, mas não abrem mão da sofisticação, geralmente atreladas às calorias.

Nesses casos, precisamos convencê-los a usar ervas aromáticas e temperos como alho e cebola, reduzir a quantidade do azeite, deixar os queijos para ocasiões especiais e investir em sobremesas diet. Precisamos desafiá-los a continuar cozinhando tão bem, mas com menor teor calórico, o que para eles passa a ser estimulante e pode até dar certo.

Padrões alimentares mistos

Não raramente encontramos pacientes com comportamentos alimentares tão confusos que, muitas vezes, não sabemos categorizá-los. Além do mais, muitos não definem claramente suas formas de comer e aparentam nunca ter pensado no assunto. Simplesmente não sabem nos dizer como se alimentam. Neste grupo encontramos alguns pacientes que, à primeira vista, parecem mentir. A descrição deles não condiz com seu peso corporal. Não encontramos também em seus exames e história médica nenhuma alteração que justifique seu peso. Diante destas pessoas, estamos diante de um dilema, pois quando não encontramos o erro alimentar, não temos como corrigi-lo. Nossa grande meta, diante de queixas de aumento de peso "injustificado", é sempre tentar decifrar os hábitos alimentares dos nossos pacientes, pois só assim, poderemos encontrar uma forma possível de acolhê-los e tratá-los.

Sua participação

Você já parou para pensar nos seus hábitos alimentares? Já pensou que seu peso corporal pode estar intimamente ligado à sua forma de se alimentar? Você consegue decifrar as situações que o levam a exagerar à mesa? Essas reflexões podem levá-lo à conclusão de que muita coisa deve ser mudada ou priorizada para que você consiga alcançar um bom padrão alimentar. As mudanças alimentares devem ser graduais, para que possam ser possíveis. Você não pode esperar que seus amigos, colegas de trabalho e familiares entendam mudanças bruscas, que, muitas vezes, exigirão deles uma nova atitude também. Você deve sempre começar pela análise de sua rotina alimentar para traçar uma meta de como deve proceder para tentar melhorar.  Virar o cardápio do avesso e tentar mudar tudo de uma vez é o mesmo que entrar numa guerra para perder. Depois que a primeira modificação alimentar virar um hábito, você parte para o próximo desafio. Para fazer essa virada, é preciso acreditar que a nova atitude irá trazer benefícios e pode não ser tão traumática. Você considera possível fazer uma mudança de hábitos alimentares em sua vida? E como você acha que sua família poderá reagir a essa sua nova atitude?

Comentários
15/09/2009   vania
Gostaria muito de um guia para me alimentar.Realmente não pensamos ,nas combinaçoes dos alimentos e nem na quantidade e qualidade do que comemos. Concordo plenamente com o texto.
15/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
VANIA,infelizmente um guia alimentar generalizado não funciona, pois como nós descrevemos no texto, as pessoas tem padrões alimentares muito diferentes, assim como diferentes gostos. A dieta ideal é sempre individualizada. Deve levar em conta suas preferências alimentares, seus horários de fome, seu lazer e seu trabalho. Vai depender ainda do seu peso corporal e da sua atividade física. Uma nutricionista poderá perfeitamente montar esse guia,mas terá que tomar como base toda uma investigação de seus hábitos alimentares como descrevemos no texto.
16/09/2009   suzi
mesmo após a bariátrica, tenho dificuldades em desenvolver e implementar bons hábitos alimentares. a senhora acha que terapia ajuda?
16/09/2009   sem coragem para dizer o nome
após a cura da anorexia, terei chances de um dia comer normalmente?
17/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
SUZI, infelizmente a cirurgia bariátrica não resolve os nossos maus hábitos e isso tira dela uma boa parte das vantagens terapêuticas. Inicialmente podemos tentar melhorar nossos hábitos, pois mudá-los pode nos parecer uma tarefa muito difícil. Podemos fazer pequenas mudanças pontuais e paulatinamente vamos aderindo a novas metas e possibilidades. Para tanto, precisamos detectar se temos apenas um hábito alimentar inadequado ou se temos um verdadeiro transtorno alimentar. Esse diagnóstico poderá nos dar indicações da sua real necessidade de terapia ou se você pode conseguir progressos com a ajuda de uma nutricionista com experiência em área comportamental. Muitas delas trabalham com transtornos alimentares e poderá te ajudar
17/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
A anorexia nervosa é o nosso maior desafio dentre os transtornos alimentares. Trata-se de uma doença grave, que geralmente se acompanha de vários outros problemas psiquiátricos como depressão e ansiedade. Apesar da gravidade, várias pacientes conseguem alcançar esse grande sonho de comer normalmente sem tanto medo e insegurança. Para tanto, você precisa de ajuda especializada, geralmente de uma equipe multidisciplinar e muita coragem. Coragem para assumir seu problema e buscar a ajuda que tanto necessita.
21/09/2009   maria de lourdes t. gomes
achei fantastico todo o texto, so que estou achando dificil de ser aplicado.Tenho uma filha de 14 anos, que esta em acima do peso , ja tentei nutricionista , medicamentos e nada.Terminou de fazer as refeicoes ela procura o que lambiscar. Estou precisando de ajuda. Esqueci de dizer que ela e baixinha o que a torna mais gorda ainda. Converso muito c/ ela e vejo que a vontade de emagrecee e muito gde , so que falta forca de vontade
24/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
MARIA DE LOURDES infelizmente não podemos ter força de vontade pelos nossos filhos. Muitas vezes a nossa vontade de que eles emagreçam é maior do que a deles próprios e por isso impossível de ser implementada. Você pode levá-la ao médico e/ou a uma nutricionista. Pode prover sua casa de aliementos saudáveis e evitar comprar e estocar qualquer tipo de guloseimas. Pode ainda estimular que ela faça atividade física para que sua dieta seja menos rigorosa. Se com tudo isso ela ainda não tem força de vontade suficiente, temos que esperar por ela e torcer para que ela assuma essa tarefa que é só dela. Além disso, se há algum tipo de comportamento alimentar inadequado, há que se avaliar a possibilidade de um transtorno alimentar. A abordagem de cada tipo de padrão alimentar inadequado deve ser individualizada como explicamos no texto e sua filha pode também contar com essa abordagem, mas a perda de peso dependerá muito mais dela do que de todos nós. Newsletter Preencha os
27/09/2009   neide llisboa
tenho 4 filhas adolescentes, de 13 a 19 anos. é possível fornecer dicas para impplantar uma rotina alimentar mais saudável?
27/09/2009   Sinara Neves Prado
como organizar um cardápio em casa que agrade a mim e o meu marido se vivo de dieta?
29/09/2009   Constança Martins
Como convencer meus filhos a não saírem de casa sem tomar café? Todos saem para faculdade e trabalho sem comer nada, correndo, atrasados...
29/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
Neide, inicialmente precisamos entender que o adolescente tem um gasto calórico intenso e é normal que sinta mais fome. Comece por oferecer alimentos em horários bem definidos e de preferência preparados em casa, evitando os alimentos trazidos por deliveries, fast foods e guloseimas adquiridas nos supermercados. O restante é bom senso, organização e se não for pedir muito, uma boa cozinheira.
29/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
Sinara, isso pode ser mesmo muito difícil, mas você precisa ser versátil e entender um pouco do preparo de alimentos. Somente assim vc pode fazer alimentos que agrade a ele e não detone sua dieta. Para tanto, invista em uma nutricionista que poderá te ajuadar a preparar o cardápio.
29/09/2009   Dra Ellen Simone Paiva
Constança, pela idade dos seus filhos, vc não conseguirá convencê-los a mais nada. Somente eles poderão ter essa percepção com a maturidade. Pelo visto, vc já deve ter tentado isso de várias maneiras. Eles terão muito tempo para perceber o quanto é importante tomar um bom café da manhã. Muitos deles comem em padarias ou no trabalho. Tentam dormir o máximo que conseguem, devido à dura jornada de faculdade e trabalho. Não deixe você de fazer o seu café da manhã com muito prazer e aguarde que eles terão o momento deles.
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