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Nutrição em Doenças
O fígado pode revelar nossa saúde
Se há obesos saudáveis, eles seguramente podem ser detectados pelo fígado. Por outro lado, se há magros com riscos de saúde, eles também podem se revelar por alterações no fígado. O sinal que determina o risco ou a segurança é o acúmulo de gordura no interior de suas células hepáticas, a chamada esteatose hepática. Essa descoberta foi discutida em um recente artigo de revisão publicado na revista médica Diabetes Care. 

Nesse contexto, o fígado passou a ser estreitamente relacionado à endocrinologia e à cardiologia, na medida em que passamos a entender, que o maior risco inerente à presença de excesso de gordura no órgão não está em sua possível evolução para a cirrose ou câncer hepático, mas para a sua muito mais provável sinalização de doenças muito distantes do trato digestivo, como o diabetes e o infarto agudo do miocárdio. 

Uma recente pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que 32% das pessoas estudadas tinham acúmulo de gordura no fígado. O levantamento foi feito com base em 14.292 exames de check up na cidade de São Paulo, realizados entre 2006 e 2010. Entre os 32% acometidos, somente em 15,1% havia a relação com o abuso do álcool. Nos outros 84,9%, a esteatose estava associada a uma alteração endocrinológica chamada síndrome metabólica, uma conjunto de alterações onde o sobrepeso ou a obesidade é a regra.
 
Do ponto de vista da endocrinologia, passamos a entender o acúmulo de gordura no fígado como um dos principais marcadores de alterações na ação da insulina presentes na chamada resistência insulínica, um denominador comum para a ocorrência de diabetes e doenças cardiológicas como o infarto. O diagnóstico pode ser feito a partir de um ultrassom do abdome e um exame das enzimas do fígado. Algumas pessoas são mais propensas a ter a doença e entre elas a obesidade é a regra. Nos casos de obesidade mórbida, a esteatose hepática chaga a comprometer 90% dos casos. Entre os diabéticos, a taxa pode chegar a 70%. Pessoas com sobrepeso têm três vezes mais chances de ter a doença do que aqueles com o peso normal.

Nesse contexto, o fígado passa a constituir um importante órgão de avaliação para a prevenção de diabetes e doenças cardiovasculares. Por isso, precisamos prestar mais atenção à ele.

A terapia nutricional pode mudar o curso da doença gordurosa do fígado

Quando pensamos em uma dieta para reduzir a gordura acumulada no fígado, a primeira idéia que temos é que deveríamos reduzir o teor de gordura do nosso cardápio. Mas não é bem assim. Aqui, o alimento de maior risco é o carboidrato. Ele interfere e agrava todos os passos do depósito anormal de gordura no interior do fígado através de um estímulo à produção de insulina. Essa, por sua vez, intensifica esse depósito gorduroso.

Assim, a dieta continua sendo o nosso maior aliado no tratamento da doença gordurosa do fígado. A maioria dos pacientes é obesa e a dieta deve promover a necessária perda de peso. Isso é mesmo mais importante do que a proporção dos nutrientes. Com o emagrecimento, há uma concomitante perda da gordura visceral e do fígado. 

Além de levar a perda de peso, uma dieta deve ser balanceada, ou seja, deve conter carboidratos, proteínas e gorduras numa proporção de 50, 15 e 30% respectivamente. O que estamos aprendendo é que nos casos de fígado gorduroso, nós conseguimos melhores resultados quando reduzimos o teor de carboidratos para cerca de 40% e aumentamos o teor das gorduras para cerca de 45%. Isso para minimizar o efeito dos carboidratos sobre a produção de insulina e, consequentemente, sobre os depósitos de gordura. 
 
Essa conduta nutricional não significa seguir uma dieta de proteínas que ensina abolir os carboidratos. Pelo contrário, a porcentagem de proteínas continua a mesma, o que fazemos é aumentar o teor de gorduras. Nesse caso, utilizamos uma seleção de gorduras do bem, presentes nos óleos vegetais como soja, canola, milho e girassol; azeite, abacate, castanhas e nozes, sementes oleaginosas como a linhaça, peixes de água gelada como salmão, cavala, sardinha, truta, atum e bacalhau frescos.

Nos raros casos de pacientes com esteatose hepática e peso normal, lançamos mão de uma dieta com a mesma composição de nutrientes descrita acima, mas com o valor calórico adequado à manutenção do peso. 
 
Devemos encarar os depósitos anormais de gordura no fígado como um dos sinais de diabetes e doenças cardiovasculares em progressão. O tratamento desse acúmulo de gordura representa uma real oportunidade de corrigir o seu curso clínico. Atualmente, dispomos de medicamentos que facilitam a mobilização das gorduras do fígado, através de uma melhora da ação da insulina. Quando, além dos medicamentos, podemos contar com a perda de peso, a adequação dos nutrientes e a prática regular de atividade física, as chances de sucesso passam a ser ainda maiores, tanto no sentido de controlar os depósitos de gordura, quanto de evitar a progressão para doenças graves como o diabetes.
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