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Constipação intestinal, obstipação, prisão de ventre, intestino preso: muitos nomes para um problema de causas variadas
A prisão de ventre é reconhecida como um dos grandes problemas da vida moderna. Atinge três vezes mais as mulheres do que os homens. Segundo a auditoria da Empresa IMS Health Brasil, nos últimos 12 meses, o mercado brasileiro de laxantes movimentou cerca de 300 milhões de reais, foram vendidos cerca de 24 milhões de unidades desses medicamentos. Atualmente, este mercado é composto por cerca de 200 marcas com composições ou formas de apresentação diferentes.

Quando o paciente chega ao consultório com a queixa de intestino preso, ele já tomou várias providências antes. Guiado pela sua própria intuição, pela opinião de familiares, amigos, vizinhos e até pelos balconistas das farmácias, ele geralmente começa a usar laxantes, pensado ser a obstipação uma alteração passageira e de fácil controle. Posteriormente, ele entende que essa atitude apenas agravou o seu quadro, fazendo com que ele dependa de doses progressivamente regulares e maiores deste medicamento.

As principais queixas dos pacientes em relação a este problema são: fezes ressecadas, impossibilidade de evacuar diariamente, volume fecal pequeno - com a sensação de evacuação incompleta - distensão abdominal, desconforto e mal estar. A maioria dos pacientes alega que não consegue ir a banheiro fora de casa, que a situação se agrava durante as viagens e fases de estresse e ansiedade. Geralmente, as queixas são de natureza subjetiva e de difícil avaliação, revelando tratar-se de uma alteração que dizemos ser funcional, ou seja, uma alteração no trânsito intestinal e na eliminação de fezes, sem doenças associadas.

Do ponto de vista médico, consideramos constipação intestinal quando:

 a freqüência ou quantidade de evacuações é reduzida;
 há necessidade de força excessiva para evacuar;
 mesmo com evacuações diárias, as fezes são fragmentadas ou endurecidas;
 há sensação de evacuação incompleta ou de obstrução ao evacuar.

Nesse contexto, é importante saber que o funcionamento intestinal diário não significa normalidade intestinal, pois muitas vezes, a eliminação de fezes ressecadas ou fragmentadas, com a sensação de evacuação incompleta e de pequeno volume diariamente já são sintomas suficientes para caracterizar a constipação intestinal. Pode acontecer também o contrário, evacuações em dias alternados podem ser perfeitamente normais .

Causas mais comuns de constipação intestinal

(1) A alimentação vem mudando de acordo com a industrialização dos países. Do ponto de vista nutricional, à medida em que passamos a consumir alimentos industrializados, comemos menos fibras, mais alimentos refinados e carboidratos sem resíduo - com farinha branca - há uma redução do bolo fecal e um menor estímulo para defecar. As fezes passam mais tempo na luz intestinal, onde perdem água durante todo o processo, tornando-se progressivamente mais ressecadas;

(2) A correria da vida moderna também influencia a ingestão de água e líquidos de uma maneira geral. Bebemos pouca água e isso também prejudica a formação de bolo fecal, tornando-o mais ressecado. O pequeno volume de resíduo e fibras insolúveis do bolo alimentar precisa da água para que promova uma expansão do volume das fezes, tornando-as mais amolecidas e mais fáceis para eliminação;

(3) O sedentarismo que vem sendo agravado pela evolução tecnológica também acentua a lentidão intestinal. Não caminhamos mais e nossa atividade, geralmente intelectualizada, nos faz permanecer sentados a maior parte do tempo com acomodação intestinal concomitante;

(4) A negligência ao estímulo intestinal é talvez um dos fatores que mais influenciam a ocorrência de prisão de ventre. Isso ocorre muito no trabalho ou em locais públicos, onde as pessoas não se sentem à vontade ou encontram banheiros inadequados. As pessoas querem evacuar em casa, pela manhã e antes do banho, alegando que muitas pessoas são um "reloginho" e que elas devem treinar no "troninho" todos os dias. O melhor treino, entretanto, é fazer também uma dieta de "reloginho": com composição e horários bem regulares;

(5) As dietas para emagrecer que são muito restritivas e desbalanceadas predispõem à prisão de ventre, uma vez que mudanças radicais dos hábitos alimentares reduzem bruscamente o volume das fezes;

(6) O uso crônico de laxantes é, sem dúvida, o fator obstipante mais freqüente. Esses medicamentos conseguem transformar um simples e passageiro mal estar numa doença intestinal crônica e muitas vezes irreversível. Algumas dessas drogas lesam verdadeiramente a parede intestinal, causando a perda total dos impulsos neurológicos evacuatórios que promovem o peristaltismo intestinal, ou seja, os movimentos que causam a propulsão das fezes ao longo do intestino. Em relação ao uso de laxantes, a maioria deles é prejudicial, inclusive aqueles ditos naturais, como chá de Senne e o complexo 46. Estes produtos são, em sua maioria, lesivos à mucosa do cólon. O uso abusivo e prolongado dos mesmos cria uma inércia intestinal e o órgão passa a funcionar somente com a ingestão de doses cada vez mais elevadas. Além disso, o uso contínuo desse medicamento pode levar à desidratação e ao desequilíbrio de sais minerais, dentre outras conseqüências;

(7) Há ainda no mercado, medicamentos que são lançados como "emagrecedores", tidos como inibidores da reabsorção intestinal de gorduras e que, na verdade, não passam de laxantes. São os suplementos alimentares, que driblam o poder regulatório da Anvisa, uma vez que suplementos não são remédios e têm uma legislação mais branda. O que os fabricantes destes remédios não dizem é que a perda de peso que eles causam ocorre por perda de água, pela desidratação que o medicamento causa. O usuário desses medicamentos perde água corporal através da diarréia e dessa forma perde peso, sem nenhuma alteração no seu teor de gordura corporal;

(8) Alguns medicamentos causam constipação intestinal como alguns hipotensores, diuréticos, megadoses de vitaminas, alguns analgésicos, antiácidos contendo alumínio, antidepressivos como a amitriptilina, suplementos de sais de cálcio para prevenção ou tratamento da osteopenia e osteoporose e suplementos de sais de ferro como o sulfato ferroso. Muitas vezes, a simples troca do medicamento pode normalizar a função intestinal;

(9) Doenças como esclerose múltipla, derrame cerebral, hipotireoidismo e diabetes podem causar constipação intestinal por alterações próprias de cada uma delas;

(10) Quando a constipação aparece após os 50 anos e é de evolução recente, há que se afastar a possibilidade de câncer colorretal.

Alertas sobre a gravidade da constipação

Por si só, a obstipação não é uma doença, mas um sintoma, que geralmente revela alterações funcionais do intestino. São os nossos maus hábitos alimentares e o nosso estilo de vida influenciando nosso ritmo intestinal. Entretanto, algumas vezes, a constipação pode servir de alerta para patologias de gravidade variável e até então não diagnosticadas como diverticulite, síndrome do cólon irritável e até o câncer do intestino grosso. Assim, pessoas constipadas crônicas, laxante-dependentes ou ainda que apresentem alterações no ritmo de funcionamento intestinal de início recente, oscilando entre a diarréia e a obstipação, dor e distensão abdominal, perda de sangue nas fezes, afilamento fecal, dor para evacuar e tenesmo (falsa vontade de evacuar) devem procurar ajuda médica imediatamente.

Dieta para tratar a obstipação

O tratamento da obstipação intestinal começa pela dieta do paciente. A primeira medida a ser adotada é fazer com que a ingestão de líquidos e fibras seja adequada, ou seja, cerca de 6 a 8 copos de água ou 1500ml/dia. Entende-se por adequada a ingestão de fibras que contemple a substituição, pelo menos em parte, dos alimentos refinados por suas versões integrais, como pães e cereais, 3 a 4 porções diárias de frutas, verduras e legumes e a substituição de parte das carnes por fontes protéicas vegetais representadas pelas leguminosas (feijão, grão de bico, lentilhas).

O que são as fibras? Para que servem?

As fibras são as partes comestíveis das frutas e dos vegetais que não são digeridas, nem absorvidas pelo organismo humano, sendo fermentadas no intestino grosso. A classificação das fibras em solúveis e insolúveis é didática, uma vez que, encontramos os dois tipos de fibras associados nos mesmos alimentos. Mas esta classificação permite uma diferenciação entre as fibras que não sofrem fermentação, com efeito benéfico ao hábito intestinal, ditas insolúveis, e aquelas que têm efeito metabólico sobre a absorção da glicose e das gorduras no intestino delgado e são facilmente fermentáveis, as fibras solúveis.

A fibra insolúvel apresenta capacidade de absorção de água e retenção de líquidos, o que facilita o movimento peristáltico do bolo digestivo, aumentando o peso das fezes e a velocidade com que elas passam pelo trato gastrintestinal, prevenindo ou tratando a constipação e suas complicações. Esse tipo de fibra não exerce nenhum efeito metabólico no organismo. Elas permanecem intactas através de todo o trato gastrintestinal e tornam as fezes mais macias, o que favorece o trânsito intestinal e a melhora dos quadros de constipação.

Fontes de fibras insolúveis:

 farelo de trigo, farinha de trigo integral, cereais matinais, grãos integrais;
 vegetais e frutas maduras: couve-de-bruxelas, beterraba, pêra, morangos, berinjela, maçã, pimentão, leguminosas, brócolis, pepino.

As fibras solúveis aparecem em menor proporção nos alimentos e representam o equivalente a 1/3 do total de fibras dos mesmos. Elas tendem a formar géis em contato com a água, aumentando a viscosidade dos alimentos no estômago, característica que retarda o esvaziamento gástrico e a absorção dos nutrientes favorecendo a sensação de saciedade.

Essas fibras afetam favoravelmente o controle do colesterol e da glicose sangüíneos, possivelmente pela redução da absorção do próprio colesterol e da glicose, através do aumento da viscosidade do bolo alimentar. Além disso, as fibras solúveis protegem a mucosa intestinal através de sua fermentação, que serve de alimento para as bactérias benéficas do intestino. Esse efeito confere às fibras solúveis o status de alimento funcional prebiótico.

Fontes de fibras solúveis:

 cereais: aveia, cevada, milho e centeio;
 frutas: banana e maçã;
 leguminosas: feijões, ervilhas;
 couve-flor, cenoura.

Quando a dietoterapia não resolve o problema

Quando a prisão de ventre é muito intensa ela pode ser resistente às modificações no estilo de vida e à dieta, requerendo então a introdução de medicamentos. Nesses casos, o paciente deve ter orientação médica, uma vez que o mercado de medicamentos conta com cerca de 200 formulações de produtos para serem utilizados no tratamento da constipação intestinal.

Inicialmente, tentamos aumentar o bolo fecal através de preparados medicinais de fibras como goma guar, inulina, plantago ovata, policarbofila cálcica e psyllium. O conteúdo em fibras da dieta deve ser aumentado lentamente, para reduzir a distensão e a flatulência que podem ser induzidas pelo início abrupto do consumo das mesmas. A regularidade intestinal não se alcança de imediato. Ela requer tempo, principalmente em intestinos acostumados ao uso crônico de laxantes.

Além das fibras, existem muitos outros medicamentos, que podem ser indicados individualmente para cada paciente, em particular, pelo seu médico. Além destes recursos, contamos também com a fisioterapia do assoalho pélvico, indicada para um sub-grupo de pacientes com alterações da dinâmica evacuatória, que ocorre geralmente por flacidez da musculatura pélvica.

Lobo em pele de cordeiro

Nossa maior dificuldade na correção dos distúrbios crônicos da motilidade intestinal são os mitos dos remédios naturais, que de natural não têm nada. Natural seria uma dieta equilibrada e rica em fibras e hidratação adequada.

Por incrível que possa parecer, uma das maiores causas de constipação crônica é o uso crônico de laxantes. Aqueles "naturais" como dizem nossos pacientes, que eles começam a utilizar em viagens ou porque simplesmente se sentem inchados e incomodados porque ficam dois dias sem evacuar. Neste grupo de medicamentos, destacamos o Sene, que nossos pacientes dizem estar tomando sob a forma de chá, como se isso bastasse para que esse poderoso laxante alcançasse o status de remédio natural.

Nomes como aloe, cáscara sagrada, ruibarbo, soam aos ouvidos deles como cordeiro. Esses medicamentos, além de serem comercializados como "produtos naturais" fazem parte da formulação de dezenas de medicamentos laxantes que, usados cronicamente, tornam o intestino completamente irresponsivo aos estímulos que normalmente levariam ao seu funcionamento normal.

Sua participação

"Doutora, tenho muita dificuldade para ir ao banheiro...", "Às vezes, fico três ou quatro dias sem conseguir evacuar...", "Em banheiros fora de casa,eu não faço de jeito nenhum...", "Quando eu viajo, só consigo ir ao banheiro no quarto ou quinto dia"... Estas são queixas comuns que a endocrinologista, Ellen Simone Paiva, diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional, Citen, ouve de seus pacientes. Queremos saber como você lida com esta dificuldade? Você já se perguntou o que causa a sua obstipação: uma dieta muito restritiva, o consumo excessivo de alimentos industrializados, pobres em fibras, o excesso de laxantes? É preciso muita informação e discussão sobre este tema...
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Comentários
06/01/2009   Jerusa Borges Santos
Como a senhora vê o uso de 15 danones activa para fazer as pessoas irem ao banheiro? Isto faz bem?
06/01/2009   Dra Ellen Simone Paiva
Oi Jerusa, essa atitude é totalmente equivocada e revela um ato de desespero e desinformação sobre o tratamento da constipação intestinal. É claro que essa conduta deve ter sido tomada por conta do próprio paciente e não faz parte das orientações nutricionais de nenhum profissional que realiza tal aconselhamento.
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