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A falta de sono adequado é, definitivamente, um fator de risco isolado para o ganho de peso
Por Naiara Magalhães
A matemática da perda de peso é simples. O consumo de calorias deve ser inferior ao total de energia gasta pelo organismo. Nos últimos cinco anos, porém, uma série de estudos vem demonstrando que um terceiro fator deve ser incluído na equação do emagrecimento - o sono. Como a má alimentação e o sedentarismo, uma sucessão de noites maldormidas pode condenar ao fracasso qualquer luta contra a balança. A pesquisa mais recente e uma das mais intrigantes sobre o assunto foi publicada na revista científica americana Annals of Internal Medicine. Conduzida por médicos da Universidade de Chicago, ela demonstrou que, em períodos de pouco sono, a queima de gordura corporal é de 55% menor e a perda de massa magra, 60% maior. "Perder massa magra significa perder músculo, e isso é ruim porque leva à desaceleração do metabolismo e faz com que a pessoa ganhe peso com mais facilidade" , diz o endocrinologista Walmir Coutinho, presidente eleito da Associação Internacional par o Estudo da Obesidade. Em outras palavras: dormir pouco favorece o efeito sanfona, a grande questão de quem tenta se livrar dos quilos em excesso.
São vários os mecanismos que associam a privação de sono ao ganho de peso (Veja quadro à baixo). Dormir pouco aumenta a síntese de grelina, hormônio responsável por estimular o apetite. Os participantes do estudo da Universidade de Chicago tiveram os níveis de grelina aumentados de 75 nanogramas por litro de sangue para 84 nanogramas por litro nas duas semanas em que dormiram apenas cinco horas e meia por noite. Neste período, eles também relataram sentir mais fome. O coordenador do estudo, o professor Plamen Penev, lembra que o estrago provocado pela falta de sono poderia ter sido ainda maior se os participantes tivessem tido a liberdade de comer o que quisessem - na pesquisa, eles eram obrigados a consumir, em média apenas 1450 calorias por dia. "A grelina é tão importante no processo de emagrecimento que o efeito das cirurgias de redução de estômago se deve, em parte, à retirada de uma porção do estômago chamada fundo gástrico, onde esta localizada a fábrica do hormônio do apetite", diz a endocrinologista e nutróloga Ellen Simone Paiva.
Privar o organismo do repouso noturno adequado provoca, ainda, a elevação dos níveis de cortisol, o hormônio do stress por excelência. Quando há uma produção excessiva de cortisol, a tendência é que o insone perca massa magra e acumule gordura, sobretudo na região abdominal. Além disso, em quantidades elevadas, o hormônio do stress induz a busca por alimentos altamente calóricos, como doces e frituras. Quem já passou uma noite em claro sabe: no dia seguinte, sempre bate aquela vontade incontrolável de devorar o pacote de salgadinhos ou se empanturrar de chocolate. É uma espécie de válvula de escape do organismo para os momentos de tensão. "Quando os níveis de grelina e cortisol sobrem, isso significa, literalmente, juntar a fome com a vontade de comer", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo.
Comprometer o repouso noturno leva também à diminuição da quantidade de duas substâncias essenciais para alinhar a silhueta - a leptina e o GH. Conhecida como o hormônio da saciedade, a leptina é produzida pelas células adiposas e tem como principal função avisar o cérebro de que é chegado a hora de parar de comer. Normalmente, a leptina é liberada quando as reservas de energia do organismo já estão preenchidas. O problema é que o sono inadequado leva a uma baixa na produção da saciedade. Ou seja, o insone crônico apresenta certa dificuldade par entender quando deve cruzar os talheres. A falta de GH, o hormônio do crescimento, por sua vez, dificulta a queima de gordura pelo organismo e facilita a perda de massa muscular. Há que levar em conta ainda que a sensação do cansaço provocada pelas noites em claro faz com que a pessoa tenda a se tornar menos ativa fisicamente e, assim, carregue mais um fator de risco pra o excesso de peso - o sedentarismo.
Não só uma sucessão de noites maldormidas é fator de risco para o ganho de peso, como o excesso de gordura corporal contribui para o aparecimento de um dos distúrbios do sono mais comuns, a apneia, caracterizada pela interrupção da respiração durante o repouso noturno. Oito de cada dez vítimas da doença estão acima do peso. Ou seja, dormir mal engorda - e o acumulo de tecido adiposo piora a qualidade do sono. Coloque, então, na sua lista de prioridades dormir de sete a oito horas por noite - e bem.
Sono de menos, Gordura a mais Além de estimularem os ataques noturnos à geladeira, as noites maldormidas podem desequilibrar a produção de hormônios associados à regulação do peso corporal.
Os principais são: Grelina: produzida no estômago e conhecida como o hormônio fome, tem a função de avisar ao cérebro que é chegada a hora de comer. Problemas de sono aumentam a produção de grelina
Leptina: sintetizada nas células adiposas, é o hormônio da saciedade. Os insones fabricam pouca leptina
Cortisol: hormônio associado ao stress, favorece o acúmulo de gordura abdominal e estimula a perda de massa magra
GH: o maior pico da liberação do hormônio do crescimento ocorre durante o sono. Em adultos, a substância ajuda na queima de gordura corporal e na manutenção da massa muscular
Fonte: Ellen Simone Paiva, endocrinologista e nutróloga
Fonte: Revista Veja |
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