Por Daniela Calderaro
Come filha, vamos, olha que delícia... tem franguinho e a menina pede para a mãe fazer queijo derretido e no outro dia, ai que delícia meu filho, tem carninha com batata e o menino só come a batata. Eu falo por experiência própria, é um verdadeiro suplício quando os filhos nunca comem um bom prato com arroz, feijão, carne e salada. A bancária Ana Paula me contou que nunca viu seu filho Pedro "limpar" o prato. A não ser quando tem bolo de aniversário... No almoço, o máximo que ele consegue comer é quatro a cinco colheradas e olhe lá. Que mãe que não fica louca quando fazem de tudo e a filha ou o filho vivem de "vento". A preocupação materna com a nutrição da criança começa bem antes do parto. "Somos orientadas a aumentar os alimentos com ferro, vitamina C e D e por aí vai, tudo para vê-los nascer fortes. E depois do nascimento, muitas desenvolvem aquela mania de achar que o leite materno é pouco, mas seguimos a ordem natural dos fatos até os seis meses. Mais adiante, mais sofrimento, quando completam seis meses, a gente fica toda iludida fazendo mil e uma papinhas para vê-los comer... só que aí, eles engolem com muito custo uma colherada, duas e choram, querendo leite. As mães das crianças obesas sofrem. Mas como causa própria, sei que as mães de crianças que comem pouco sofrem mais. As que têm filhos com apetite desregrado, então... vivem o 'inferno' na Terra", desabafa Ana Paula. Mas como para tudo há uma saída, a explicação da médica Ellen Simone Paiva, que é especializada em Endocrinologia e Nutrologia do Centro Integrado de Terapia Nutricional (Citen), pode sim ajudar muitas mães que vivem esse dilema diário. Vale ressaltar que o Citen é uma clínica voltada à terapia nutricional de doenças crônicas em nível ambulatorial em São Paulo.
Transtornos alimentares
De acordo com o Citen os transtornos alimentares são ainda mais prevalentes nas crianças, alcançando 25% delas, aumentando para 80% quando se refere à criança com rejeição alimentar. Esta rejeição, segundo a especialista costuma coincidir com a descoberta da criança de que a mãe irá oferecer outro alimento mais palatável, por exemplo, um iogurte, diante da sua recusa em consumir a refeição.
Quando um bebê mama, ele não ingere apenas leite, ele se nutre emocionalmente, brinca, ama e sente angústias inomináveis também. Alguns são esganados, mamam como se fosse aquela a última vez, outros são parcimoniosos. Há os que lutam contra a fome ou os que provocam suas mães. A maneira de tratar o seio/alimento indica características da personalidade do bebê e da relação com a mãe. O desmame, por exemplo, é um momento muito delicado dessa relação.
Quando a criança se recusa a comer é necessário investigar quais fatores contribuem para essa situação: personalidade, relação com a mãe e significado do alimento para a família merecem atenção especial. Algumas mães se desesperam diante da recusa alimentar de seus filhos e usam estratégias para forçar a alimentação. As profissionais do Citen alertam: "Essa prática em geral não funciona ou piora a situação. Devemos procurar entender qual o sentido dessa recusa para a relação mãe e filho. Há controle e invasão por parte da mãe? Vingança por parte do filho que não come? Quais as angústias e ansiedades que colaboram para essa situação?". Segundo dra. Ellen há sim significado para os atos infantis, mas é preciso sensibilidade aguçada para percebê-los.
Geralmente, a mãe percebe uma diminuição do consumo alimentar de seu filho ao final do primeiro ano e ao longo do segundo ano de vida. Esse fenômeno é conhecido como anorexia fisiológica, pois, nessa fase, há uma desaceleração do crescimento da criança, além de um maior interesse dela pelo ambiente ao seu redor, o que causa o desvio de atenção do alimento. Por isso, não é recomendável distrair a criança enquanto ela está fazendo suas refeições, para que ela coma sem notar, pois essa prática diminui ainda mais o interesse da criança pelo alimento.
Anorexia na adolescência
Por incrível que isso possa parecer, as primeiras influências para um comportamento extremista de dietas para emagrecer vêm da própria família. Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a magreza. As pressões sociais para que as pessoas, principalmente as mulheres, se enquadrem num modelo X ou Y de beleza geram preocupações extremadas com a imagem corporal. Essa preocupação constante com o peso pode ser muito prejudicial, especialmente, se levarmos em conta a fragilidade das crianças e a vulnerabilidade dos adolescentes que crescem compartilhando as dificuldades dos adultos, principalmente de suas mães, em manter um peso corporal adequado aos padrões socioculturais. "A exposição de meninas susceptíveis aos transtornos alimentares às "dietas da moda" está claramente relacionada ao desenvolvimento de casos do comer patológico. Isso provavelmente se relaciona ao fato de essas dietas apresentarem em comum grande restrição calórica, monotonia de refeições e perdas de peso fantasiosas, a curto prazo", lembra dra Ellen. E continua: "Todas essas características transformam essas dietas em preâmbulos do jejum prolongado, e esse é o caminho mais curto para os episódios compulsivos, os vômitos e as várias outras atitudes purgativas que caracterizam os transtornos alimentares".
A mídia também influencia comportamentos alimentares aberrantes, uma vez que veicula esses padrões patológicos de comportamento. Nesse contexto estão os sites que usam de jogos on-line que encorajam meninas a colocar suas bonecas virtuais em dieta e a levá-las a clínicas para fazer cirurgias plásticas como o que vem acontecendo na Grã-Bretanha. Mais de 200 mil pessoas já se registraram no website Miss Bimbo (http://www.missbimbo.com) desde seu lançamento, em fevereiro deste ano, a maioria delas entre 9 e 16 anos de idade. Na página inicial, as meninas são incentivadas a criar as bonecas "mais legais, ricas e famosas do mundo". Para alcançar este objetivo, elas usam "bimbo dólares", moeda virtual utilizada no site, para comprar roupas, fazer cirurgias plásticas e comprar anorexígenos. "Veja que perigo, segundo o próprio site, para que as bonecas participantes possam "alcançar a fama e conquistar maridos bilionários". Pais e profissionais de saúde já apontam o website como uma ameaça e não uma brincadeira, pois o jogo pode passar uma mensagem completamente equivocada sobre beleza e sucesso para crianças e jovens", avisa.
Tudo o que envolve corpos magros lucram com a indústria da moda e esse é talvez o segmento mais envolvido no contexto de beleza, qualquer que seja ela, incluindo a atual apologia à magreza excessiva. Entretanto, conforme lembra a especialista, têm surgido vozes importantes contrárias a esse ideal perverso, como o que aconteceu na França em abril passado, quando os principais representantes do mundo da moda, da publicidade e da comunicação assinaram, juntamente com o Ministério da Saúde francês, um código de boa conduta para combater a anorexia. O texto é o resultado de uma iniciativa lançada pelo governo francês há mais de um ano, depois da polêmica sobre a magreza excessiva dos modelos e o alegado incitamento à anorexia entre a juventude. "Comprometemo-nos a promover no conjunto das nossas atividades uma diversidade na representação do corpo, evitando toda a forma de estereótipo que possa favorecer a constituição de um arquétipo estético potencialmente perigoso para as populações frágeis", afirma o texto. Depois disso, vários outros países europeus lançaram iniciativas semelhantes. Entre os signatários da "Carta" figuram as federações francesas de moda feminina e de alta-costura, sindicatos de agências de modelos, União das Indústrias do Vestuário e o Gabinete de Verificação da Publicidade.
Sinais da anorexia e quais são suas conseqüências
Quando tratamos de anorexia, falamos essencialmente de medo. O medo é pavoroso. Medo de engordar. A paciente sente-se ameaçada o tempo todo. Uma festa, um passeio, um almoço em família ou um encontro com os amigos na lanchonete. Tudo é motivo de risco e sofrimento. Com a percepção desse terrível risco de engordar a menina começa a mudar. Lentamente... Muitas vezes, a família nem percebe que aquela filha tão querida e tão equilibrada está passando por um grave processo psíquico, que a levará, progressivamente, a um estado de tamanha insatisfação com o próprio corpo, temor intenso de perder o controle sobre si e a uma necessidade desesperada de conter a ingestão de alimentos. "Inicialmente, a menina expressa uma preocupação com o peso corporal e começa a se interessar por dietas e pelas calorias dos alimentos. Isso é louvável e, inicialmente, a atitude é motivo para mais elogios dos pais e familiares. Progressivamente, ela começa a abolir de suas dietas os alimentos mais calóricos, principalmente, gorduras e carboidratos. Começa a chamar atenção pelo rigor do controle, pela não concessão de nenhuma regalia, nem a mais deliciosa, nem na ocasião mais festiva".
Nesse momento, seu peso já está claramente abaixo da média e ela continua comendo somente alimentos light e diet e usando roupas mais largas, afirmando, sem constrangimento algum, estar muito gorda. Nessa fase, já podemos notar a doença avançando através da distorção da imagem corporal, a paciente se examina o tempo todo e se olha muito no espelho. "Progressivamente, passa a abolir a carne, o leite e derivados. É comum surgir o vegetarianismo, não em razão de uma filosofia de vida, mas pelo fato de a carne conter uma quantidade razoável de gorduras. O jejum é freqüente. Muitas vezes, as pacientes deixam de ingerir líquidos também, sob a alegação de que aumentam o volume se seus abdômens, o que pode levar a quadros de desidratação e necessidade de internação", ressalva.
As pacientes param de menstruar com a progressiva escassez de tecido gorduroso, que impede o metabolismo normal dos hormônios femininos. Sem alimentos, o organismo consome a própria massa muscular, a fim de obter energia para as funções vitais. "A morte pode ocorrer por arritmia cardíaca causada pela queda do potássio, colapso circulatório causado pela desidratação e baixa temperatura corporal, a hipotermia", informa. O tratamento da anorexia, assim como o de todos os transtornos alimentares, envolve uma equipe multidisciplinar de atendimento, composta por médicos, nutricionistas e psicólogos ou psicanalistas. A terapia cognitivo-comportamental, a psicoterapia e a psicanálise podem ser utilizadas juntamente com a orientação nutricional. Alguns medicamentos, principalmente, alguns medicamentos antidepressivos e sacietógenos podem ser aliados importantes do tratamento. Fundamental, também, é o papel da família como suporte no tratamento desses pacientes, fornecendo apoio e compreensão, evitando atitudes de julgamento e crítica.
Quando a criança fala não!
Refeições monótonas e pouco palatáveis, facilmente recusadas por adultos, serão também rejeitadas pelas crianças, sem que isso signifique inapetência delas. Neste sentido, as papinhas e sopas liquidificadas, que não permitem nem a mastigação, nem a percepção dos sabores individualizados dos alimentos contribuem para a recusa alimentar e reforçam a necessidade da elaboração mais cuidadosa das refeições das crianças. Mesmo diante da correria da vida moderna e das dificuldades das mães em conciliar trabalho com a nova demanda da alimentação de seu filho, cuidados com o preparo das refeições infantis devem ser observados. Porém vale frisar que cada criança tem sua própria individualidade e algumas comem pouco, porque se satisfazem com pouco.
Diante da queixa "meu filho não come" é importante a avaliação da adequação do peso da criança. Conforme a médica especializada em Endocrinologia e Nutrologia, se as curvas de "crescimento x peso" revelarem normalidade, a queixa pode traduzir-se em preocupação excessiva dos familiares que, muitas vezes, desejam ver seus filhos superalimentados. Mas, se os valores das curvas de crescimento revelarem um peso abaixo do esperado, podemos estar diante de um quadro de anorexia infantil, que merece ser investigado. De acordo com as especialistas, existem as causas orgânicas e as comportamentais, sendo a última mais freqüente e difícil de ser tratada, pois são determinadas por erros de concepção e de condutas praticados pelos pais.
FONTE: GAZETA DE LIMEIRA |